quinta-feira, 14 de maio de 2009

Uma medalha para Possidônio Queiroz

Dagoberto Carvalho Jr.
Assumido defensor de homenagens a vivos, justamente para que possam – os merecedores de público reconhecimento – fruir a gratidão dos contemporâneos, como tantas vezes ocorreu aos oeirenses de minha geração fazerem com o professor Possidônio Queiroz; estendo o alcance do meu desejo à órbita da imortalidade intelectual, para que a própria República, em sua largueza de gestos, contemple, com a Medalha do Mérito Cultural, a memória do conterrâneo ilustre.
Possidônio Nunes de Queiroz não foi, apenas, o maior intelectual oeirense (da cidade de Oeiras, primeira capital do Estado do Piauí, sede de uma das mais antigas Câmaras Municipais do país, criada em 1712 e instalada em 26 de dezembro de 1717), senão mesmo, um dos mais expressivos do próprio Estado e – se levarmos em conta sua condição étnica de cidadão assumidamente negro –, do Brasil que o governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenta e consegue resgatar.
Destaco de modo especial, seu conhecimento e intimidade com os clássicos portugueses e brasileiros, traindo-se, na preferência, entre os primeiros, pelo padre mestre Antonio Vieira; entre os nossos, por Rui Barbosa cuja biografia e obra conheceu por inteiro e como poucos. Na conhecida modéstia que o caracterizava chegou a comparar sua arraigada admiração por Vieira e Rui a que, despretensiosamente, prende este “pobre homem” de Oeiras do Piauí a Eça. Eça de Queiroz cuja contribuição literária à renovação do idioma nunca deixou de reconhecer e exaltar. Paralelamente e em complementaridade ao imensurável saber de autodidata, foi respeitado professor de português e músico de excelsas qualidades.
No mais literal sentido do termo, a grande “flauta de prata” de seu tempo e de seu meio. O verdadeiro e erudito menestrel da cidade, para quem se o modernismo apagou os lampiões das antigas serenatas, deixou mais claras as partituras das valsas que, incorporadas ao patrimônio musical de nossa gente, já se vão tornando clássicas no gênero.
No cenário cultural da antiga capital teve a dimensão de seu valor e a longevidade que o fez contemporâneo do século. Participou ativa e brilhantemente de todas as grandes campanhas e iniciativas que se fizeram – como gostava de dizer – a prol da “velha urbe”. Começou fazendo a diferença na marcha em defesa da preservação do nome de Oeiras quando o Estado Novo getulista o ameaçou de substituição. Vitorioso foi, também, na campanha pela criação a Diocese, ao lado, entre muitos outros denodados companheiros, do Cônego Antonio Cardoso de Vasconcelos. Diocese que viria, outra vez, a defender, quando compartilhada por escusos caprichos de bispo de quem fora amigo e entusiasta. Escreveu dezenas de memoriais reivindicatórios em benefício da cidade, associando-se, em um deles, à campanha – de que esteve à frente o juiz Antonio Santana Ferreira de Carvalho – de elevação da comarca à quarta entrância.
Colaborou com o médico e escritor Expedito Rêgo, na década 1970, para o sucesso do jornal “O Cometa”, mensário em torno do qual se organizou e definiu o Movimento Oeirense de Renovação Cultural, cujo resultado maior foi e é o Instituto Histórico de Oeiras. Redigiu os estatutos da Casa que secretariou e presidiu com entusiasmo de jovem e a sábia experiência da maturidade. Com o amor telúrico de sempre.
È para Possidônio Queiroz que se reivindica, republicanamente, “in memoriam”, o reconhecimento da Medalha do Mérito Cultural. De parabéns a Fundação Nogueira Tapety, pela justa iniciativa!
Dagoberto de Carvalho Jr é imortal da Academia Piauiense de Letras

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